Segunda-feira, Março 21

Primavera com poesia.


Soneto da Ilusão




"No teu olhar, orgulho desmedido;
a forma como falas: ganhadora;
no teu sorriso, um sonho reflectido
da alma que tens, sublime e sonhadora!

E vives sem amor correspondido;
nas sortes da paixão, és sofredora:
e no desejo trazes, escondido,
de amar uma vontade tentadora!

E tu que tens num sonho de criança,
uma vontade louca de alcançar,
no azul do céu, a lua e o firmamento,

aceita que é injusto o sofrimento
de não deixares jamais aproximar
o que de ti pressente uma Esperança!"



LM




Hoje começa a Primavera. A estação das flores. A estação onde as andorinhas começam a fintar o vento. A estação em que o cúpido vem para a rua fazendo tiros certeiros com a sua pequena flecha. Curiosamente, hoje, o primeiro dia da Primavera, é também o dia da poesia. Eu adoro poesia e finalmente encontrei o poema (ou por ele fui encontrada) para partilhar. Porquê? Meus caros leitores, ora leiam e digam-me porquê :).





Beijo terno e eterno.

4 Elos:

Luís Mouta disse...

Todos os homens encerram em si um pedaço de poesia através dos seus amores, dos seus desamores e de todas as circunstâncias próprias de cada vida. Porém, eu não acredito em poetas vencedores, nem acredito em poemas alegres: atrás de cada poesia está sempre um homem quase sempre trucidado pela derrota, por mais angelicais que sejam as palavras atiradas para cima de um pedaço de papel.
É por isso que gosto do Fernando Pessoa. Gosto dele não tanto pela pessoa que foi, já que se desdobrou demasiadamente em heterónimos que reflectiam as suas personalidades dúbias, mas pelo que foi fazendo sem sombra de vaidade: ele foi empresário, ele foi crítico literário, ele foi activista e, imagina Ana, ele até foi um jornalista. Nessa caminhada de destino incerto, embrenhou-se no mundo incapaz de se reconhecer a si próprio, encerrando em si muitas personalidades e aqueles tantos "eus" que não entendia e que observava quase sempre com a amargura do desdém. Passou pela vida sem nunca a ter vivido, substituindo assim a sua felicidade pela mais completa e profunda agonia. Das suas muitas palavras destaco um poema que me diz muito: "O poeta é um fingidor; e finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente."
Em relação ao soneto, acredito que esse poeta que assina as palavras com que ilustraste a tua publicação, é mais um pobre que cantou com mágoa a sua cobardia: as palavras são bonitas com toda a certeza; mas quem conhecer a verdade desses sentimentos, saberá reconhecer-lhes a vil ausência da coragem. É bonito o poema, claramente; mas honras sejam feitas ao Pessoa por, pelo menos esse, ter-se reconhecido devidamente.

Cumprimentos.

Ana Pinheiro disse...

Olá Luis.
Mais importante que os sentimentos reflectidos num poema, é a veracidade dos mesmos, sejam eles quais forem. Como sabemos se são verdadeiros? Há coisas que não se explicam, sentem-se :).
Eu não sou poetisa, como sabes, mas ser poeta não é só saber escrever poemas, mais do que isso é viver e sentir cada momento :).
Obrigada e beijoquinha.

SÉRGIO AUGUSTO DE MUNHOZ PITAKI disse...

Ana Pinheiro:

Ontem à noite, sorrateiramente, na minha estante
Coloquei, bem de mansinho, o meu pequeno livro de poesia
Ao lado de Florbela. Era a Charneca em Flor.
Dormi. Era como se estivesse acomodado,
Acariciado, velado e a tivesse encontrado!
E que sua espera e sua dor, enfim
Desaparecessem comigo.
Flor, Florbela, Saudade.
Viva em páginas e nem só por
Um instante, longe ou fora de nós.
Remoendo seu desejo: “Encontrar um verso puro,
altivo e forte, estranho e duro.”
Pois então, que assim seja, ao lado do meu “Aurora”.

Ana Pinheiro disse...

Sérgio Augusto,

Obrigada pelo bonito poema :)

Ah, fique sabendo que Florbela Espanca é a minha poetisa de eleição.

Beijo.